Opinião: previsões para 2020 e uma viagem a um futuro mais distante

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O ano é 2050. Depois da mais profunda crise financeira da história nos anos 2020, finalmente um novo modelo econômico foi erguido dos escombros, de bancos grandes demais para quebrar, empresas centenárias e monopolistas.

O esgotamento do sistema financeiro pós-Bretton Woods, com a devastadora tsunami de inflação e desconfiança generalizada na economia, foi o estampido para corridas bancárias, quebras espetaculares de dinossauros, unicórnios e minotauros.

Um novo sistema econômico surgiu baseado em infraestruturas descentralizadas, liberdade econômica, uma nova visão sobre privacidade e soberania individual. A implosão das moedas soberanas foi causada pela perda absoluta de confiança nos sistemas de governo existentes para controlar algo tão importante quanto o meio de troca entre pessoas.

Com isso, surgiram moedas descentralizadas, o Uber tem uma, o iFood outra, o Google outra, o Facebook tem a sua – e não é a Libra. Todas essas empresas foram descentralizadas e hoje operam única e exclusivamente para gerar benefícios para os usuários, que não só votam nos executivos como recebem os dividendos.

“Wallets” fazem todo o trabalho de conversão a partir de algoritmos que garantem liquidez, equidade e transparência na execução. 

Nos acostumamos a entender riqueza muito mais como fluxo e acesso do que acúmulo e, por isso, temos uma relação mais saudável com o dinheiro. O avanço da Inteligência Artificial e Robótica foi fundamental. Fábricas escuras são a regra e humanos podem se dedicar a outras atividades sem se preocupar com ter o mínimo de dignidade, uma renda universal mínima garante isso e torna todo o sistema muito mais antifrágil.

Explodiu a procura por entretenimento, o que aumentou ainda mais o nível e diversidade da produção cultural, esportiva e acadêmica da sociedade. Além disso, o investimento em evitar a mudança climática e mitigar seus efeitos tem se pagado, o que levou tecnologias limpas a evoluírem exponencialmente e passarem a ser também as de maior produtividade.

Aparentemente, voltamos a viver como os gregos nos seus melhores tempos, mas sem precisar de escravos.

Pensando por um outro lado, a história pode ser bem diferente. A onda de pandemias iniciada com o Coronavírus nos anos 2020 gerou uma recessão profunda com a drástica redução na circulação de mercadorias e pessoas. O comportamento geral mudou, evitando grandes aglomerações e atividades de risco como transporte público.

Ao mesmo tempo, o medo de epidemias ajudou a criar cidades-estado cada vez menores e mais autônomas, com forte controle de fronteira para evitar a contaminação dos habitantes. Isso ajudou a enfraquecer o estado e sua capacidade imprimir dinheiro. A perda do padrão dólar ou de qualquer economia relevante o suficiente fez com que ouro e Bitcoin se tornassem as moedas globais. Outras criptomoedas relevantes vieram junto. 

Os mais ricos passaram a investir na propriedade compartilhada de fábricas escuras e a dominar a produção e distribuição de produtos, num modelo de especialização e trocas. A medida que a necessidade por mão de obra diminuiu houve uma migração ainda mais massiva para o setor de serviços, com salários cada vez menores e situação cada vez mais precária.

Com a explosão da violência os serviços de segurança particular passaram a ser mandatórios, vivemos sob o domínio de milícias que lutam por território no qual podem cobrar por proteção. A falta de acordo global sobre o clima  tornou impossível reverter a mudança climática, gerando grande prejuízos e redução da produtividade agrícola. Passamos a viver num Mad Max cripto anárquico. 

É claro que as previsões acima são peças de ficção, possíveis mas ainda assim imaginárias.

No geral, cenários de longo prazo nos ajudam a explorar grandes tendências e identificar no presente sinais que apontam para um futuro ou outro. No nosso caso, algo comum nos cenários é o papel central do blockchain e criptomoedas na organização econômica e social do futuro.

Essa é uma tendência sem volta, consolidada nos últimos 10 anos e acelerando rapidamente, que pode ter mais ou menos impacto de acordo com o desenvolvimento da própria tecnologia, mas que tem potencial de impactar profundamente as estruturas mais básicas da organização humana. 

Mas antes de nos preocuparmos com 2050, vamos projetar 2020. Esse tipo de previsão é muito mais arriscado, principalmente por conta do recente passatempo natalino de ridicularizar previsões erradas. Mas a verdade é que todos precisamos de entretenimento, então vamos aos chutes para o ano.

Como tendência geral, as aplicações de blockchain serão muito mais específicas e pragmáticas, estamos saindo da era do “onde será que podemos botar blockchain?” para “Blockchain seria perfeito para resolver esse problema!”.

Muitas dos atuais protótipos vão fracassar por conta de erros de julgamento da complexidade versus retorno e promessas impossíveis de cumprir com a tecnologia vendida.

Insucessos retumbantes e vitórias heroicas 

Em muitos casos a tecnologia vendida está muito longe da realidade dos protocolos, e isso pode gerar grandes fracassos, gerando uma sensação de anticlímax para a tecnologia que ia resolver todos os problemas do mundo.

Por outro lado, sucessos significativos em casos de grande impacto, como Supply Chain e outras oportunidades de grandes ganhos com baixo risco de implementação, podem ter o efeito de acelerar o desenvolvimento comercial de determinadas soluções.

Blockchain é muito útil, mesmo, e talvez principalmente, quando não é nem disruptivo nem revolucionário, como as aplicações sendo exploradas pelos grande bancos, e também de grande parte dos casos de sucesso de 2020.

Unicórnios e Dinossauros 

Por falar em bancos, 2019 já foi o ano das fintechs que usam blockchain. Essa tendência tem tudo para não só se manter como acelerar. Até o programa de aceleração do Banco Central vai focar em startups de blockchain.

As grandes instituições financeiras, principalmente no Brasil, vão começar a competir com grande capacidade de inovar e bolsos fundos. Soluções de fundo de investimento e custódia de cripto por players tradicionais devem ganhar cada vez mais tração, especialmente se o “Bull Run” do começo do ano se confirmar. 

O Banco Central pode até emitir o criptoreal, mas provavelmente ele não vai chegar até você. Bancos Centrais ao redor do mundo estiveram entre os primeiros a experimentar com blockchain e moedas digitais de países são um caso óbvio.

O problema é que uma possível emissão direta de moeda digital seria um forte golpe no modelo de negócios atual dos bancos de varejo que, na prática, imprimem dinheiro e são grandes demais para quebrar, ou competir. Isso dificilmente vai acontecer enquanto vigorar o modelo atual. 

Games 

Outro caso de uso que está mostrando alguma maturidade é o de Games, que já é a principal categoria de dApps em número de usuários e tem players relevantes participando de iniciativas em blockchain.

Unisoft e AMD participarão da operação da plataforma de Blockchain Ultra, que promete tornar o mercado de distribuição de jogos muito mais justo, aumentando o valor gerado para desenvolvedores e jogadores.

Um dos maiores mercados de itens de games do mundo, a OPSkins, migrou para blockchain com o projeto WAX. Esse caso de uso tem tudo para continuar liderando as estatísticas de uso em 2020.

Uma moeda pela sua atenção

Outra forte tendência é exemplificada pelo Brave Browser e o conceito do Basic Attention Token (BAT). O browser conta com funcionalidades nativas de privacidade e bloqueio de anúncios, ao mesmo tempo que cria novos espaços de publicidade que poderão ser comprados utilizando o BAT, que será distribuído aos usuários por navegar e consentir em ver anúncios.

O Brave já conta com mais de 11 milhões de usuários e todo o projeto é open-source. O time está trabalhando para facilitar que outros browsers possam utilizar o mesmo modelo de incentivo e privacidade.

Num mundo cada vez mais viciado em cashback, não é difícil imaginar as pessoas buscando oportunidades de fazer dinheiro enquanto estão navegando, ou mesmo dar outros modelos de relacionamento e monetização para provedores de conteúdo. 

Já o Voice, rede social descentralizada criada pela Blockone, vai ser lançada em fevereiro. Com todas as funcionalidades de uma rede social e uma mecânica parecida com a do Brave, usuários do Voice ganharão tokens por utilizar a rede e também por produzir conteúdo relevante, cada like num post vai gerar tokens para o autor.

Esses mesmos tokens podem ser utilizados para comprar exposição na plataforma, a mesma lógica de negócios do Facebook, mas nesse caso, quem vai estar vendendo pelo menos parte do espaço são os usuários da rede. Ao invés de procrastinar no Facebook, vai ser possível ganhar dinheiro no Voice fazendo a mesma coisa.  

Além de ter um modelo bastante coerente, e estar fazendo todo o caminho regulatório necessário, a Blockone tem alguns bilhões de dólares na conta arrecadados com o ICO do EOS e investidores como Peter Thiel. Influenciadores devem ficar atentos para migrar seus públicos para plataformas descentralizadas com maior potencial de receita e incensuráveis.

Assim como nos últimos anos, 2020 promete ser um ano ainda mais agitado que o anterior. Fique atento.

2020 também marca o começo desse espaço para falarmos sobre as aplicações práticas de blockchain e seus modelos de negócios. Falta aptidão para tentar prever o preço do Bitcoin no final do mês ou do ano, mas como diria Peter Drucker, a melhor forma de prever o futuro é criá-lo.

Sendo assim, a ideia é conversar sobre as aplicações mais impactantes de blockchain, focando naquelas que vão criar um jeito radicalmente novo de fazer negócios. Esse é um espaço de troca mesmo, então fique a vontade com os comentários e emails. 

As visões, pensamentos e opiniões expressas aqui são apenas dos autores e não refletem nem representam necessariamente as visões e opiniões do Cointelegraph.

Fonte Cointelegraph

Last modified: 10 de fevereiro de 2020